17 de setembro de 2017

Não, não vou





                                                                (foto: Sheila Chaves)




"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio - Cântico Negro

8 de setembro de 2017

Vasto, vivo!

  

(Michael Carson)

Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é o mendigo mais faminto da rua, mais miserável. Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se põe. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco. Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.


                                 Caio F. (Na terra do coração)

15 de agosto de 2017

Na pele do tempo





"As Horas", assim como o próprio sentido do termo, não cessa de me levar por caminhos mais profundos, como uma fonte inesgotável sempre a me dar de beber e a me provocar sede. Ontem minha turma do percurso em Psicanálise da APPOA teve a felicidade e o privilégio de trabalhar essa obra. Tanto o filme, de Stephen Daldry, quanto o livro, de Michael Cunningham, foram lindamente falados e discutidos com a participação de Diana Corso, autora do ensaio "Sem medo de Virgínia Woolf".

Nesse mosaico composto por simbolismos e relações, inúmeras questões podem ser levantadas e todas dignas de horas a serem ocupadas por elas, mas, ontem, senti como que ainda mais tocada pela palavra do feminino tão bem atribuída à escrita de Virgínia Woolf  e representada, também, nas obras já mencionadas. A ilusão da presença, a ausência, o lugar de não ser, o cair dentro de si, o vazio, a constância, aquilo que as mulheres sabem... Esse foi o fio condutor tão bem desenhado por Diana Corso e que fez com que o desenho das letras que habitam na minha pele "Sempre as horas", ganhasse ainda mais sentido. Talvez porque ser mulher tenha a ver com sentir a passagem do tempo no corpo, estar na pele do tempo, no pêndulo que dança entre o que morre e o que renasce.

Foi uma mulher que me fez rever "As Horas"; despretensiosa, lançou-me um grito: - Virgínia Woolf! Eu me virei meio aturdida. Estava no meio dos patos tentando fotografá-los. Na hora não entendi... Mas houve algo de certeiro ali, como se ela tivesse nomeado algo muito interno e profundo, algo meu. Quando o assisti novamente, a vida não pôde continuar a mesma. Eu estava ali, naquelas mulheres. Virgínia, Laura, Clarissa... Reviradas em mim.

Na discussão realizada no seminário, as palavras e reflexões me  ajudaram a localizar sentimentos, a compreender sensações difusas, esse lugar para onde a mulher vai e precisa ir, o qual foi traduzido como a queda que fazemos em nós mesmas, no "âmago escuro" que encontramos quando nos desencontramos de nós. Daí a experiência de vida e morte, dos ciclos, daquilo que não cessa de bater, a insistência da vida e a retirada para o descanso de não ser... Só um pouquinho, não ser. Quase que como um apelo, um apelo puramente feminino, porque reconhecemos esse lugar. Somos os olhos do cotidiano, do gesto, do sons, do que se repete, do que sussurra... Tic-tac, tic-tac... Fazemos casa no vazio, pois o conhecemos.

Nas cenas desse filme da vida, o bolo que não sai, as mãos que tremem ao quebrar os ovos, a fuga para a estação de trem, a inaptidão para suportar o prático, o prático que chama para o papel a desempenhar, para a imagem, para a certeza fálica. Contemplar o pássaro morto, andar pelo meio dos patos, passar a chave na porta e escrever, desaparecer... Incompreensões erigidas pelos ponteiros entorpecidos. Laura Brown desiste de se matar quando percebe que é possível morrer. A desistência se faz possibilidade, e possibilidade de vida.  A desistência é a estrada ao lado...

Sempre me senti capturada pelo movimento do pêndulo no relógio e principalmente pelo barulho silencioso das horas que passam no minúsculo, no menor movimento, naquilo que cessa para que o resto continue; as pequenas (ou grandes) quedas no vazio cheio de vida, onde a morte e a vida se tocam. Elas, duas mulheres! Talvez esteja aí uma possibilidade de olhar para as cenas de beijos entre as mulheres das horas: Virgínia e a irmã Vanessa, Laura e sua amiga Kitty, Clarissa e sua companheira Sally... O beijo, aqui, nada tem a ver com orientação sexual ou erotização; para mim se trata de um apelo, um apelo a compartilhar desse lugar íntimo que não pode ser traduzido, uma tentativa de dividir a sensibilidade solitária, aquela da queda, que pode produzir um encontro. Um chamamento ao sentir. Um apelo à verdade. Um encontro com o tempo.

S. Chaves





7 de maio de 2017

é também paixão








De onde venho, meu velho, para onde vou? 
Mas nenhum traço de comoção dramatiza minha voz. 
Estou calmo, lúcido, fumando. 
Nem careço rigorosamente de escrever uma carta: 
ninguém me chama, ninguém me espera, ninguém me denuncia. 
O coração pesa e se refugia silencioso entre possibilidades e apreensões. 
Dir-se-ia um coração cansado. 
Entretanto, meu velho, esse é um valente coração. 

... Como se torna difícil explicar as coisas 
quando a liberdade instala em nós seu reino de incertezas. 
Agora, eu preciso distinguir cada céu, 
conseguir de cada um a intimidade singular, 
de cada vento devo arrancar o segredo, a confidência, 
de cada alegria é preciso que eu estabeleça os limites, 
organizando as paisagens que a compõem, 
que lembranças me vivem na alma, que tonalidade de luz me cerca, 
que momentos de tédio ou ansiedade precederam o prazer de colecionar conhecimentos. 
Agora, irmão, tudo é diferente e nada se repete. 

Sou de índole fragmentada e dispersa. 
Quando não me engole a tragédia, me apaixono a todo instante: 
uma lembrança, um rosto, uma faixa de areia branca 
suavizando a visão de edifícios e quintais. 
A entrega, entretanto, jamais humanizou meus amores. 
Eu me apaixono pelas possibilidades, isto é, 
as nuanças, as entregas arrependidas, indecisas ou inconscientes, 
isso que promete negando ou nega prometendo, 
tudo isso me encanta e reclama. 

O que me interessa nas coisas é o que elas poderiam ser. 
O que me atrai nas criaturas é a disponibilidade, 
essa linda e trágica espera incessante, 
esse constante vigiar das tentações, 
como se torcêssemos pela circunstância, pela pessoa, 
pelo demônio que viesse (que sempre parece vir) 
nos arrancar dos trilhos para as cambalhotas da vida. 

Você há de ter observado, meu velho, um rosto, 
um olhar disciplinado e intimidado por séculos de civilização burguesa, 
você há de ter notado que nesses rostos 
costuma brilhar de vez em quando um anseio esquisito, 
uma luz que é bem uma sede de pecado, de desconhecido, de desastre. 
Instantes em que se revela em nós o pagão – o selvagem, 
o homem que deseja perder a própria vida e não ganhar. 
Bem, irmão, esses momentos são tudo pra mim. 

Quanto de entrega existe entre mim e as pessoas que me rodeiam? 
Que porcentagens extraio das almas que me escutam? 
Que espécie de vida viveríamos se ousássemos mais um pouco? 
Talvez essa lucidez minha seja triste. 
Mas, mermão, a lucidez é também paixão, 
e a mais irremediável que eu conheço. 

(fragmentos de "Carta a Otto ou Um Coração em agosto" - Paulo Mendes Campos; imagem do filme "A cidade onde envelheço")