28 de janeiro de 2010

Espera


De que serve um passeio, uma viagem, experiência essa de extrema valia e necessidade, se não pudermos refletir e absorver o que fica ao retornarmos ao nosso local de origem? Dez dias em Floripa, se não fosse a euforia de viver cada segundo, um diário de viagem seria um bom instrumento para ajudar nessa reflexão póstuma. Mas bem, como não o fiz, faz-se a obrigação de escolher uma dentre tantas coisas que poderiam ser tema desse meu texto; e sem nem mesmo saber muito bem o motivo, sinto-me inclinada a escrever sobre algumas cenas que chamaram a minha atenção nas idas e vindas pelas estradas de lá... Nós, seres humanos, seres urbanos, temos uma tendência a perceber as coisas a partir de nossas referências, nada errado até aí, porém, noto como às vezes torna-se intrigante outros modos de viver, principalmente quando estão mascarados com uma certa ideia de inferioridade, de malandragem, talvez... Muitas vezes fui surpreendida por grupos de homens, homens reunidos a espera de algo, a espera de fazer uso de sua embarcação, a espera do fisgar do peixe, a espera de algo que só me cabia adivinhar... Um outro tempo, um outro ritmo, uma outra forma de viver os minutos, as horas... Achei lindo quando ao realizarmos uma curva em um dos tantos caminhos percorridos (e juro que me pareceu que aqueles segundos de atenção dispensada foram muito maiores), avistei quatro ou cinco homens, sentados em um banco improvisado, um ao lado do outro, sem nenhum tipo de comunicação. Ambos pareciam absortos, num mundo particular. Não havia obrigação de falar, uma comunhão pelo simples fato de se estar compartilhando o mesmo lugar, o mesmo universo que de tão comum, de tão impresso em seus seres, fez com que eu percebesse ali uma verdade, a beleza de quem consegue por alguns instantes apenas aceitar o que se é. Não sei, não faço a mínima ideia do que estava a acontecer em seus pensamentos pois, estavam todos longes, longes também de imaginarem o bonito quadro que compunham naquele ambiente, naquele momento passageiro. Eu fiquei a pensar sobre essa e tantas outras cenas parecidas (como a da foto, por exemplo) e fiquei com uma certa inveja, nada pejorativo, apenas um sentimento de não conseguir, tantas vezes, estar naquele estado onde tudo parece parar, onde a pressa não tem tanto valor, onde deve ser possível pescar muito da vida, talvez sentir a sua essência, ao contrário de perceber repentina e assustadoramente a sua passagem.

2 comentários:

Roberta Cadaval disse...

Lindo Sheila! Fazia tempo que não me "conectava", agora que parei um pouco vim visitar teu espaço. Tuas palavras são uma delícia de viajar, me senti como aqueles homens, em um outro mundo - à parte - quando li "a Espera". Parabéns!!!

Sheila S.S. disse...

Querida, fico muito feliz com tua visita e teu comentário, porque sei que são palavras de quem compreende exatamente os sentimentos que me levaram a escrever esse texto, em especial. Obrigada!