15 de dezembro de 2008

memória 11 - sobre aula do dia 30/10

(Desde que comecei a publicar as memórias as faço na ordem em que foram escritas, porém, sinto-me um pouco aprisionada, pois nem sempre o assunto que está presente em meus pensamentos no momento condizem com o assunto da próxima memória a ser publicada. Sendo assim, resolvi a partir de agora publicá-las de acordo com o assunto que está a me motivar no momento... Ultimamente tenho lido e trocado idéias a respeito do tema amor, então, aproveito o momento para registrar minha penúltima memória feita em 2008.)


Sobre o Amor e o Amar

"O amor não é, primacialmente, uma relação para com uma pessoa específica; é uma atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com um "objeto" de amor." (FROMM)

Trazer o assunto amor às discussões de sala de aula foi um aspecto bastante relevante em minha opinião. São muitos os motivos que me fazem pensar assim, porém, o principal é o fato de estarmos preparando-nos para o exercício da Psicologia.

Ao lidarmos com pessoas, seja o contexto que for, o amor será um elemento presente, mesmo que configure-se das mais variadas formas. Ele deverá ser um universo a receber toda uma atenção do psicólogo, já que o amor é fundamental para o ser humano e, arrisco-me a "dizer", que não haverá casos, problemas, sofrimentos, pacientes em que a questão do amor estará ausente, pois falar do amor é falar do homem.

Para tornarmo-nos sujeitos, precisamos do outro. O homem só o é a partir da relação e seu bom desenvolvimento e bem-estar só será possível se as relações que forem estabelecidas, principalmente no início de sua vida, estiverem baseadas no amor, em um amor saudável.

"O homem, de todas as idades e culturas, vê-se diante da solução de uma só e mesma questão: a de como superar a separação, a de como realizar a união, a de como transcender a própria vida individual e encontrar sintonia. (...) E a questão é a mesma porque se ergue do mesmo campo: a situação humana, as condições da existência humana." (FROMM, ?)

Tão diferentes como as formas de estar no mundo são as formas de amor, de amar.
No texto "As novas faces do amor", Luc Ferry apresenta três tipos de amor, partindo da antiguidade grega que o designava através de três palavras : Eros, Philia e Agapè.

Eros é o amor configurado no desejo sexual, na paixão, na falta. Na mitologia, o amor (Eros) nasceu da união de Recurso(Poros), que era imortal, com Pobreza(Pênia) que era mortal. "Da mãe herdou a permanente carência e o destino de andarilho. Do pai, a coragem, a decisão e a energia que o tornam astuto caçador. Com essa dupla herança tornou-se um ser nem mortal, nem imortal, mas transitando permanentemente entre viver, morrer e ressuscitar." (COSTA, 2007)

Na "teoria das pulsões" de Freud, o ser humano é dotado de duas pulsões básicas: Eros (pulsão de vida) e pulsão destruidora, ou pulsão de morte. "Eros, cuja energia é denominada libido, reúne as pulsões de conservação e as pulsões que, em um primeiro momento, Freud chamou sexuais e, por último, simplesmente amor, compreendendo o amor narcisista e o amor objetal." (COSTA, 2007)

A exemplo do amor narcisista, temos a personagem lendária Don Juan, que foi alvo de alguns debates em sala de aula. Don Juan carrega em torno de sua figura o mistério, o poder, o amor erótico. Seu amor, porém, baseia-se na negação do outro em seu próprio benefício, ou seja, o outro só tem importância enquanto o louva, ele é incapaz de reconhecer o outro como parte independente de si mesmo.

Retomando as três faces do amor, o segunto tipo de amor abordado no texto estudado é o amor Philia. Ao contrário de Eros, "não vive da falta e do consumo, mas, pelo contrário, da alegria preciosa e singular que nasce com a simples presença e mesmo existência do ser amado." (FERRY, 2007)

O amor Agapè surge a partir dos evangelhos, é um amor de origem cristã que baseia-se na gratuidade, ou seja, amar independente do objeto. Esse último tipo de amor é o mais difícil de sentir, de viver, pois ele transcende os limites que o homem contemporâneo coloca para o exercício do amor.

Sendo assim, penso ser pertinente refletir sobre a concepção de amor que assimilamos e repetimos em nosso dia-a-dia, muitas vezes sem no darmos conta da pouca oportunidade que reservamos a pensar e enriquecer o ato de amar.

Assim, coloco algumas citações de Erick Fromm, que expressam o amor no contexto atual. Apesar de seus ecritos terem sido elaborados há décadas atrás, traduzem de forma bastante fidedigna as questões mais atuais que vivemos hoje.

"Se falamos de amor na cultura ocidental contemporânea, temos de indagar se a estrutura social da civilização ocidental e o espírito dela resultante são de molde a conduzir ao desenvolvimento do amor."

"O mercado das utilidades determina as condições sob que os artigos se trocam; o mercado de trabalho regula a aquisição e a venda do trabalho. Tanto as coisas úteis, como a energia e a capacidade humanas úteis, são transformadas em artigos que são trocados, sem o uso da força e sem fraude, sob as condições do mercado."

"O capital comanda o trabalho; as coisas acumuladas, que são mortas, tem valor superior ao trabalho, às forças humanas, àquilo que é vivo."

"Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transicionar e consumir: tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e de consumo."

Dentro dessa concepção atual do amor, não poderia deixar de citar também a noção de "amor líquido" desenvolvida por Zygmunt Bauman. Ele vê o indivíduo da sociedade capitalista como sendo um homem com "bolsos cheios e coração vazio".

É o autor Gley costa quem escreve sobre os amores líquidos de Bauman: "Como o dinheiro, as relações amorosas no mundo globalizado se estabelecem com extraordinária fluidez e se movem e escorrem com extrema facilidade, em permanente e frenético movimento." (COSTA, 2007)

Mas, então, diante dessa situação, desse quadro social do qual fazemos parte, o que nos resta? O que é necessário fazer para se atingir uma nova concepção de amor que venha amenizar os conflitos e angústias do homem que não cessam diante do modelo de amor atual?

Para citar uma, entre outras possíveis direções, trago mais uma vez a teoria de Erick Fromm. Ao tratar o assunto amor, ele defende que não se pode ensinar a amar, já que o amor é uma experiência pessoal, e cada um a vive de forma muito particular. Porém, ele coloca que há rumos, direções que podem levar a uma prática da arte de amar e, para isso, aponta três fatores essenciais, fazendo uma anologia ao que é necessário para se realizar qualquer arte: a disciplina, a concentração e a paciência.

Esses elementos têm uma grande importância, mas o autor ainda traz qualidades específicas para o desenvolvimento da capacidade de amar. São elas: a superação do narcisismo, levando à objetividade, que é a capacidade de ver as pessoas e coisas tais como são e separá-las de uma imagem formada pelos desejos e medos que se possa ter.

A segunda qualidade, que traz consigo a terceira, é a capacidade de emergir da fixação incestuosa à mãe e ao clã. "...depende de nossa capacidade de crescer, de desenvolver uma orientação produtiva em nossas relações para com o mundo e para conosco. Esse processo de emersão, de nascimento, de despertar, requer como condição necessária uma outra qualidade: a fé." (FROMM, ?)

Essa fé, a qual o autor descreve como uma qualidade para o ato de amar, ele chama de fé racional: "uma convicção enraizada na própria experiência que se tem de pensamento ou sentimento". Ela é um traço de caráter que se faz presente em toda a personalidade do indivíduo.

A fé aparece nesse contexto como um ato de coragem, ou seja, pela capacidade de correr riscos e lidar com a dor e a decepção. Assim, "ser amado e amar requerem coragem, a coragem de julgar certos valores como sendo de extrema preocupação, de saltar à frente e apostar tudo nesses valores." (FROMM, ?)

Após todas essas idéias a respeito do amor, quero finalizar essa memória partindo das últimas palavras da citação acima.
Só podemos apostar em valores se os conhecemos e os julgamos importantes, se crescemos tendo-os como referências, se alguém que nos amou foi capaz de apresentar-nos a eles.

Só é possível amar se conhecemos esse sentimento, caso contrário, penso até mesmo ser difícil identificá-lo ao nos defrontarmos com ele. Mas, apesar de tão complexa e delicada, talvez a questão do amor ainda seja a mais bonita no universo dos homens, pois somos extremamente dependentes desse sentimento, o que nos torna imensamente frágeis e ao mesmo tempo tão fortes, tão vivos!


Referências Bibliográficas:


COSTA, Gley P. O Amor e seus Labirintos. Artmed: Porto Alegre, 2007.


FERRY, Luc. O Homem Deus ou o sentido da vida. Difel: Rio de Janeiro, 2007.


FROMM, Erick. A Arte de Amar. Itatiaia: Belo Horizonte, (?).

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