5 de dezembro de 2008


memória 5 - sobre aula do dia 21 de agosto


Interpretar: a "senha" da vida


A aula do dia 21 de agosto foi permeada por discussões a respeito do significado da interpretação e suas implicações. Houveram diferentes pontos-de-vista a respeito da validade da interpretação no âmbito do estudo antropológico, mais especificamente em relação ao método etnográfico.

Refletindo sobre a questão do interpretar de forma mais ampla, acredito que se trata de uma necessidade humana e que desde muito cedo colocamos em prática, pois só conseguimos relacionarmo-nos com o mundo e as coisas se soubermos interpretar, ou seja, buscar os significados com o intuito de compreender.

Dentre as características do método etnográfico, o interpretar vem antes das demais, é o primeiro item para que a partir de então se possa salvar, registrar e direcionar o estudo à sociedade. Mas, antes de enquadrar especificamente a dimensão interpretativa no contexto antropológico, penso ser importante "passear" um pouco sobre essa questão do ponto-de-vista filosófico.

O homem é um ser racional consciente, esse é o pressuposto da teoria do conhecimento como reflexão filosófica. A partir dessa teoria "a consciência é uma atividade sensível e intelectual dotada do poder de análise e síntese, de representação dos objetos por meio de idéias e de avaliação, compreensão e interpretação desses objetos por meio de juízos." (CHAUI, 2006) Sendo assim, fica impossível sustentar uma idéia de relação onde a necessidade de interpretação, significação, esteja suspensa, já que é o elemento que diferencia o homem dos outros seres vivos e por isso, a sua ferramenta de vivência no mundo.

A filosofia hermenêutica consiste em uma "teoria geral da interpretação." "Pela hermenêutica descobre-se o significado oculto, não manifesto, não só de um texto, mas também da linguagem. Pode-se dizer que, por intermédio da hermenêutica, chegamos a conhecer realmente o próprio homem, a realidade em que vive, a sua história e sua própria existência." (MUSETTI, ?)

Paul Ricouer, filósofo francês (1913-2005) "direcionou sua obra para uma filosofia que procura interpretar o homem contemporâneo", tendo uma preocupação pela questão do sentido da ação humana.

Uma das afirmações expressas pelo professor Osmar Schaefer no texto "Paul Ricouer - Sobre Hermenêutica e Filosofia" (2008) diz que "a relação com o homem e os caminhos a ele nunca são diretos. A única via de acesso ao ser humano é indireta. Trata-se de perceber e apreender o conteúdo de seus gestos, os sulcos que deixa na terra." Essa idéia é sustentada pelo fato de que a realidade é simbólica. O símbolo é uma construção humana que permite as relações e trocas entre os sujeitos. O indivíduo que não compreende, ou seja, que não interpreta os símbolos culturais, ou que o faz de forma mais empobrecida, fica a mercê de um maior entendimento sobre o mundo que o cerca, assim como de seu lugar nesse mundo, dificultando o exercício de sua consciência como pessoa, cidadão e sujeito. Sendo assim, a interpretação configura-se nessa capacidade de compreender os símbolos e seu uso em determinados contextos. "O mundo só é acessível, e só é, na medida em que é "configurado" na expressão, na linguagem. Assim, também o sujeito somente é, se se configura, na medida em que decifra o mundo, tornando-se sociabilidade." (SCHAEFER, 2008)

Após ter enfatizado a questão da interpretação primeiramente considerando-a como uma necessidade quase que inerente ao ser humano e após, relacionando-a com o caminho pelo qual o homem se desenvolve como leitor de seu universo circundante, quero nessa última etapa pontuar algumas questões sobre a contribuição da filosofia nas ciências humanas, em especial sua relação com a ciência antropológica.

Para realizar um estudo antropológico, ou até mesmo para exercer sua consciência de sujeito, o indivíduo precisa agregar à sua vida cotidiana ou aos seus objetivos como pesquisador, os gestos fundamentais do filosofar: questionar, ligar, criticar, re-interpretar. O antropólogo precisa reunir essas capacidades para que seu estudo seja baseado no critério de verdade, que significa a fecundidade em relação à dimensão que esse trabalho terá como via de compreensão do mundo humano. É o fundo de motivação que provém do filosofar presente na postura do pesquisador. Uma das contribuições da filosofia está na "intenção de manter o espanto admirativo e o espírito questionador, que os saberes positivos e as aplicaçõs técnicas tendem a apagar"; que nada mais é que "a motivação profunda da reflexão filosófica desde os pré-socráticos gregos." (RICOUER, 1999).


Se a ciência puder se utilizar da filosofia, acredito que esse meio tornar-se-á mais humano no sentido de preocupar-se com as abrangências de uma teoria, estudo, pesquisa, mas principalmente de propor aspectos mais qualitativos a um universo tão voltado para a frieza dos números: Assim, a "filosofia é convidada a negociar entre essas categorias: ciência e ampliação para visão de mundo." (RICOUER, 1999)

Em relação aos três níveis de interpretação possíveis: compreensão pré-científica, científica e pretensão de visão total, penso que a inserção da reflexão filosófica na ciência vem induzir as questões interpretativas ao terceiro nível, já que nesse nível três perguntas são feitas: Para quê? Para quem? Por quê? E é esse nível de interpretação que nos situará no mundo dos valores.

A interpretação, como já mencionei, é nossa ferramenta de vivência no mundo. Através dela é que perdemos o olhar ingênuo, que compreendemos os porquês e que crescemos como pessoas, sujeitos. Para finalizar deixo algumas palavras do escritor português José Saramago que ilustram perfeitamente a essência do interpretar:


"Tenho-me divertido ou instruído, aos poucos, a descobrir a diferença entre olhar e ver e entre ver e reparar. É interessante, isso. É elementar, suponho até que o verdadeiro conhecimento está na consciência que tivermos da mudança de um nível de percepção, para dizê-lo assim, a outro nível." (Saramago)


Referências Bibliográficas:

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2006.

MELLO, Marco. Pesquisa participante e educação popular: da intenção ao gesto. Porto Alegre: Ed. Ísis, IPPOA, 2005.

SCHAEFER, Osmar Miguel. Paul Ricouer - Sobre Hermenêutica e Filosofia. In: Pizzi, Jovino e Ghiggi, Gomercindo (Org.) Diálogo Crítico Educativo, Um debate filosófico. Pelotas: Educat, 2008. p. 59-73.

Sites Consultados:

MUSETTi, Rodrigo Andreotti. A Hermenêutica Jurídica de Hans-George Gadamer e o pensamento de São Tomás de Aquino. Disponível em: http://www.cjf.jus.br/revista/numero7/artigo18.htm Acesso em: 02 set. 2008.

http://portal.filosofia.pro.br/fotos/file/ricouer.pdf Acesso em 02 set. 2008.

3 comentários:

Mr. Cortex disse...

O interessante, quanto a interpretação, é que não existe uma interpretação certa ou uma interpretação errada, apenas existe uma interpretação que nos permite agir de forma adequada num dado momento. Em algumas ocasiões, olhando para nossas interpretações que até funcionaram num dado momento passado, percebemos que não eram exatamente as mais apropriadas... Mas o que há de mais apropriado do que vencer o momento? Se o momento foi vencido, significa que a soma total de nossa vida até aquele momento nos permitiu tal façanha. Se entendemos, ao olhar para trás, que poderíamos ter sido melhores, então neste momento em que nos damos conta disso estamos "sucedendo" pois observamos um caminho andado, e não uma estagnação, um abandono de jornada. Talvez o mais adequado seja viver e transformar.

Sheila S.S. disse...

Essa questão da interpretação causou alguma polêmica em sala de aula, pois algumas pessoas defendiam a idéia (para mim absurda), de que o antropólogo não poderia interpretar, apenas participar e vivenciar as experiências etnográgicas... Mas imagine, então, seu trabalho não faria sentido para a sociedade, apenas para si, não é mesmo? É que até a palavra interpretar sugere muitas interpretações. Sendo assim, defendi meu ponto de vista através dessa memória.
Seu comentário é bastante interessante e confesso, adorei o termo "vencer o momento", mas será mesmo que vencemos todos os momentos apenas porque já passaram, ou então, porque conseguimos ultrapassá-los? De forma alguma estou contrariando vc, apenas pensando alto... Porque muitas vezes acabamos nos dando conta de que alguns momentos poderiam ser vividos de forma mais verdadeira, caso pudéssemos tê-los interpretado de forma a alcançar melhor a sua essência, mas daí penso eu, se trata de conhecimento e não tanto da capacidade de interpretar... Posso dizer que o conhecimento é o caminho para o interpretar, não? Quantas vezes admiramos as coisas, por exemplo, uma música, uma imagem, seja o que for... podemos ter a nossa interpretação pessoal, a partir de nossa sensibilidade e das informações que possuímos até aquele momento, mas mais tarde (e claro que isso já aconteceu com vc, com todos nós...)acabamos obtendo algum tipo de conhecimento sobre aquele assunto e então, tudo se torna mais claro, você compreende o porquê, não que a interpretação anterior não seja válida, mas às vezes é ingênua para o contexto em que determinada coisa (objeto da interpretação) se apresenta.
Bem... mas como vc mesmo sugere, não dá para engolirmos o mundo e abarcar todos os saberes, então... vamos vencendo o momento. Essa idéia é bastante sábia! ...E humana! :)

Sheila S.S. disse...

Ah! E obrigada por "aparecer" nesse "lugar" tão solitário. hehe... ;)