27 de abril de 2009

Maria Balancê

Na Noiva do Mar Maria vive. Maria tem uma coisa em comum com esse lugar, um lugar do mar, do vento e das ondas, que ora balançam serenas ora se põem agitadas. Maria é como uma delas, mas uma onda deslocada de seu mar, uma onda que balança por todos os lugares, porém sem beleza, sem poesia, sem que seja exaltada pelos dias de sol ou pelas noites enluaradas. Mas tanto faz, dia ou noite, multidão ou solidão, calor ou frio, Maria está sempre lá, sempre igual, em um banco da praça, no degrau de uma porta, na calçada, em uma esquina qualquer. E balança... De um lado para o outro. Balança e balança... Como o pêndulo do relógio que não se cansa... Quer dizer algo!
Mas, será mesmo que não se cansa? Talvez canse de não ser olhada, de não ser ouvida, de não ter razão... Talvez suas pernas cansem e seus pés então... Mas quem pergunta? Quem quer saber?
Maria queria ser mãe. Queria balançar o seu bebê. Não sei muito bem a história de Maria, mas todos dizem que ficou assim, desse jeito, coitada, porque lhe tiraram o seu bebê. E desde então, Maria balança de um lado para o outro o bebê que ficou do seu desejo, da sua imaginação dolorida. Virou gente conhecida, popular. Virou Maria Balancê. É essa sua identidade. Uma identidade frágil, quase apagada, quase abstrata, quase nada...
O que falta à Maria? Não quer mais ser figura da cidade, não quer mais assustar as criancinhas. Imagina! Logo Maria que gosta tanto de crianças... Não quer mais ter que pedir. Maria vive pedindo, pede alimento, pede atenção. Maria pede com educação. Gosta de conversar, não chega pedindo, invadindo... Convida para a sua casa, fala de histórias de vida comuns, fala do cotidiano, queria viver aquilo..., e depois, ganha. Se é que ganha... Depende da generosidade, depende de ouvidos pacientes.
Falando em pedido, certa vez, no hospital, Maria pediu à minha mãe se poderia segurar-me em seu colo. Medo, dúvida, desconfiança. O que fazer? Não me segurou.
Mas, hoje, Maria me segura e me balança... Balança minha consciência, minha compaixão, minha revolta, meu olhar diferente e minha compreensão do seu mundo.
O mundo de Maria não é o mesmo que o meu. Mas tenho fé, acredito na esperança e no trabalho de quem quer trazê-la para cá, ou levar-me para lá. Aproximação! Humanização! Todas as ondas no mesmo mar, balançando.


( Texto escrito para a disciplina de Saúde Mental Coletiva, 4º sem. do Curso de Psicologia da Unisinos. O tema foi "Criaturas do Absurdo" e visava a reflexão crítica no contexto da saúde mental a partir de "personagens" conhecidos de uma população e que passam a integrar o cenário das cidades e /ou bairros. Pessoas na sua grande maioria vítimas de sofrimento psíquico.)

Minhas palavras a respeito de Maria Balancê, como é conhecida na cidade do Rio Grande, são expressas a partir de minhas impressões e meus sentimentos. Esse texto não partiu de uma aproximação investigativa ou de dados que posso afirmar como verdadeiros, trata-se de minha reflexão pessoal a partir de minhas vivências nessa cidade, do que pude observar, ouvir e até mesmo de situações em que pude estar presente ao lado dela.

2 comentários:

.Kel. disse...

Oi Sheia, gostei do teu texto e lembrei bem a "Maria do Balanço", bem da forma que sempre a vi nas ruas de Rio Grande. O que conhheço da história é o mesmo que tu mencionou... lembro quando estava na loja da minha ex-sogra e ela lá chegava era só sorrisos e palavras agradáveis a todos... vão-se 30 anos ao menos que vaga por nossas ruas... tenho certeza que Rio grande estará mais vazio quando ela não estiver mais por lá...

Sheila S.S. disse...

Eu imagino que ela possa ter outros "apelidos" por aí, para mim era "Maria Balancê"... Como mencionei, esse texto foi feito para uma cadeira da facul que tem mexido bastante comigo e com os colegas. Foi bem catártico escrever, já que fiquei pensando como era a minha relação com essa pessoa desde pequena, como era meu olhar em relação a ela. Hoje, como tu mesma disseste, trinta anos se passaram, depois de tudo o que vivi e aprendi, ainda mais agora, com um conhecimento mais específico sobre o universo dessas pessoas, um grande senso de responsabilidade se apodera de mim. Pena que não estou mais lá, se não, com certeza me aproximaria para conhecê-la melhor... :) Abração, Raquel!