17 de abril de 2009

"De volta para casa"


O corpo humano tem uma história. Ao longo do tempo ele passou por inúmeras transfigurações e a cada contexto histórico significou e simbolizou a idéia vigente da época.
Dentro da linha do tempo estabelecida no texto "O Corpo" de Maria L. Arruda Aranha, gostaria de limitar essa memória à primeira concepção apresentada, a concepção platônica.

Platão (séc.V a.C.) acreditava que a alma povoava o mundo das idéias, onde ela era independente dos sentidos. "Para Platão, o homem também é um ser dual. Temos um corpo que "flui" e que está indissoluvelmente ligado ao mundo dos sentidos, compartilhando do mesmo destino de todas as outras coisas presentes neste mundo. (...) Mas também possuímos uma alma imortal, que é a morada da razão. E justamente porque a alma não é material, ela pode ter acesso ao mundo das idéias." (GAARDER, 1995)

O mundo das idéias significa uma realidade autônoma onde estão as idéias, ou seja, as formas, as imagens que são eternas e imutáveis e que encontram-se na natureza. Em contraponto está o mundo dos sentidos, o qual não poderíamos confiar, já que é transitório, transforma-se. Sendo assim, não é digno de opiniões seguras, pois essa segurança só pode ser adquirida pela via da razão, que é invariável. Assim, "a alma humana passa então a se compor de duas partes, uma superior (a alma intelectiva) e outra inferior (a alma do corpo)." (ARANHA, 1986)

O interessante é que, de certa forma, essa idéia platônica ainda permeia a realidade atual.
Persiste uma idéia de que o intelecto, a razão, são mais importantes do que o que pode ser realizado enfatizando prioritariamente os sentidos, o corpo físico, como por exemplo o esporte, a dança e inúmeras outras atividades que não conseguem enquadrar-se como atividades reconhecidas na mesma linha que as intelectuais. Claro que o pensamento e o intelecto estão presentes nessas atividades, porém, as cito no sentido de ilustrar um contexto em que o corpo estaria em evidência.

Retomando a questão entre inferioridade e superioridade, referindo-me à idéia platônica, penso ser esta uma idéia muito forte, um arquétipo difícil de se abandonar. Como metáfora essa idéia não me parece tão desagradável, em meu contexto talvez..., já que percebo em minha vivência o quanto às vezes é necessário buscarmos uma certa elevação no sentido de nos desligarmos um pouco do que é visível, palpável, dominando talvez as nossas distrações, no sentido de obter uma direção que nos permita desenvolver, absorver e elaborar conhecimentos, enriquecendo nosso intelecto; porém, jamais defendendo a idéia de que não nos desenvolvemos a partir de nossas paixões e sentidos básicos. Com certeza trata-se de um pensamento dualista, mas tendendo à valorização do intelecto sobre à banalização do uso do corpo, sobretudo hoje.

A alegoria da caverna, interpretada do ponto de vista em que a caverna representa o corpo, traz a idéia de que o corpo aprisiona o homem. É como se a alma, no mundo das idéias, fosse pura e no momento em que passa a habitar o corpo torna-se escrava dele, dependente.
Penso que o máximo que consigo obter é um pequeno esboço de entendimento sobre essa questão, atrevendo-me a ensaiar algumas relações.

Seria o corpo um instrumento que aprisiona porque torna-se marca, denúncia, estigma?

Seria o corpo um limitador dessa alma, a qual submete-se aos sentidos configurando-se em dor, prazer, inúmeras sensações e percepções?

Sim, somos um corpo. Porém, nem sempre aos olhos do outro, pelos quais nos reconhecemos, esse corpo visível, tocável, corresponde ao que sentimos e/ou pensamos, já que o corpo é o ser no mundo e esse mundo o classifica e faz a leitura dos corpos de acordo com um padrão estabelecido, seja de ordem estética, moral, religiosa, econômica, de normalidade, entre outros...

Platão pensava que quando as pessoas tinham contato com as formas da natureza isso gerava uma vaga lembrança dentro de sua alma, ou seja, tudo o que elas viam remontava à uma idéia original, que não era a mesma presente ali no momento do contato.

"Ao mesmo tempo em que isto ocorria, despertava no homem um anseio de retornar à verdadeira morada da alma. Platão chamava este anseio, esta saudade, de eros, que significava amor. A alma experimenta, portanto, um "anseio amoroso" de retornar à sua verdadeira morada. A partir de então, ela passa a perceber o corpo e tudo o que é sensorial como imperfeito e supérfluo." (GAARDER, 1995)

Penso que esse pensamento (longe de querer tomá-lo em toda a sua profundidade) abre uma brecha para a relativização da vida, do mundo. Se tudo o que é sensorial é imperfeito e supérfluo, mesmo que o parâmetro para esta afirmação seja o ideal racional, é sinal de que padrões fixos de pensar e/ou estar no mundo tornam-se rígidos e pesados demais ao homem, já que ele só pode viver através dos seus sentidos, do seu corpo, o que lhe dá uma visão subjetiva e particular do mundo, assim sendo, imperfeita e distante de uma verdade absoluta. Isso sugere, talvez, a possibilidade de olharmos o próprio corpo e o do outro para além do visível, através de eros.

"Nas asas do amor, a alma deseja voar "de volta para casa", para o mundo das idéias. Ela quer se libertar do cárcere do corpo." Gaarder

Referências Bibliográficas:

ARANHA, Maria L. de Arruda e MARTINS, Maria H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: romance da história da filosofia; tradução João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

* Imagem do filme "Asas do Desejo" de Wim Wenders (clássico do cinema dos anos 80)

2 comentários:

Luli =) disse...

Olá
Peguei seu endereço lá na comunidade da Amélie...
Curti muito seublog, venho visitá-la mais vezes!

um beijo!

(tb adoro "O mundo de Sofia"!!)

Sheila S.S. disse...

Seja sempre bem vinda, Luli! :)