21 de julho de 2009

Exercício febril (um conto sem nome dividido em partes)


Porque ainda nadava sofregamente e debatia-se perdida num mar salgado e violento, achava que bastava a confissão em terra firme e assim, insistia em escrever palavras.
Era a forma que encontrava de salvar-se um pouquinho a cada dia. Não chegava à outra margem e por vezes parecia mesmo que afogava-se na efervescência de sua mente.

A mão sempre dançava rápida e imprimia ao papel as letras turvas em busca de significados, indecisões de seus segredos, já que amiga falsa como era, daquele que sustentava o seu pesar, nem a ele confiava o seu tormento maior.

Mas isso era bom, e a acalentava, tanto que por instantes sentia-se livre, caminhando vagarosamente sobre areias macias e mornas, chamando de longe o que na verdade era perto e urgente. E porque pensava que podia suportar, subitamente jogava-se ao mar, rendida, e tudo novamente.

Como não podia viver aquilo, precisava arrebatar-se em lutas insanas.
Aquele caminho imaginado...

Era tão feliz na sua infelicidade que preferia mesmo sofrer, só para sentir o seu coração.

Um comentário:

Márcia disse...

Que lindo, atormentadamente lindo. Lispectoriano, com certeza.