4 de agosto de 2009

Uma criança para brincar


Estava eu a lembrar de minha infância e também a pensar sobre como eu a vejo hoje. É engraçado como certos acontecimentos ficam marcados e são mais requisitados nos arquivos da memória.

Sei bem que muitas das nossas lembranças confundem-se com fantasias e que fatos do passado, às vezes, não são tão fidedignos às informações que hora ou outra trazemos à consciência.

Agora, o mais curioso dessa história é que meus pensamentos sempre insistem em buscar comportamentos que eu tinha lá pelos cinco anos de idade e que, desde que fui tornando-me outra coisa que não criança, me pego a pensar sobre eles.

Uma das coisas que sempre me vem à mente é o fato de que eu passava boa parte das horas imensas de meus dias na rua (como a grande maioria das crianças que foram crianças nos anos oitenta), mais precisamente na frente de casa. Eu morava no centro da cidade, mas em uma rua pacata, até porque naquela época a cidade inteira era bem pacata. A casa era rosa, o número, 209. Havia um portãozinho preto no qual eu adorava me empoleirar.

Mas o fato é que, visto as nossas condições (eu morava com meus avós, minha mãe e a Dadá, que cuidou igualmente de mim), não havia tanto entretenimento como há hoje, ou ao menos eu não tinha acesso. Não tinha brinquedos caros, mas eu adorava e sei que fui bastante feliz fazendo comidinha de capim e o melhor, o melhor de tudo, eu estava sempre na companhia de minha avó.

Ah! Eu acho que em se tratando de infância, essa companhia foi o que de mais precioso ficou. Ela sempre dava um jeitinho de me consolar toda vez que eu voltava para casa aos prantos das brincadeiras em turma. Eu nunca vou esquecer de uma certa vez em que eu voltei chorando e ela disse que tinha um presente para mim, um anel, ou seja, procurou em sua gaveta da máquina de costura aqueles ganchinhos de cortina que cabem no dedo de uma criança. Pronto. E a tristeza findava.

É que as brincadeiras com as outras crianças sempre foram um problema, sim, porque eu era a mais novinha e usando uma expressão de criança, eu era a "café com leite." Além do que, tudo sempre sobrava para mim: eu era a "bater" no esconde-esconde, a pegadora no pega-pega, o homem nas brincadeiras de contos de fada, e também lembro de quando prenderam-me num quarto escuro. Não sei quanto tempo eu fiquei lá, decerto alguns minutinhos, mas criança lê o tempo em eternidades.

Tudo bem, eu não fiquei traumatizada, que eu saiba, mas talvez por conta disso é que, por vezes eu parava na esquina de casa (a casa era quase na esquina) e praticava, digamos assim, uma abordagem inesperada para os outros e porque não dizer, comovente, visto as reações que eu presenciava e que hoje sutilmente ainda lembro.

Eis que eu me parava de prontidão na esquina e então, quando um adulto passava eu perguntava: - O senhor tem uma criança para brincar comigo? E a maioria das pessoas paravam, e respondiam com um sorriso no rosto meio que achando aquilo engraçado, e de fato, era engraçado, mas eu não sabia.

Uma pausa para pensar. Por quê? Por que falamos coisas às crianças as quais não vamos cumprir?

Eles quase sempre respondiam que sim, e então eu dizia que fossem buscar o amigo ou a amiga, pois eu ficaria ali esperando. E eles concordavam, davam-me esperanças. Mas a espera chegava àquele ponto em que até mesmo uma criança, mesmo que de forma mais demorada, percebe que fora enganada.

Outras vezes eu saía batendo de porta em porta, e fazendo a mesma pergunta. Algumas pessoas deixavam eu entrar, essa abordagem era mais bem sucedida. Havia uma casa, na verdade, um casarão, em que certa vez eu descobri uma amiguinha, e bem... Ela guardava um tesouro, algo demasiado precioso para mim.

Eu sempre ia à sua casa para ver as suas roupas de ballet e a sapatilha que ela tinha. Eu lembro que, para ela, aquilo era tão comum, mas eu tinha um coração palpitante nessa hora e embora não estivesse em frente a um espelho para verificar, eu sabia que meus olhos deveriam brilhar como estrelas diante daqueles objetos que eu venerava.

Agora, na vida adulta, eu sempre me pergunto... O que mudou?

Claro que eu continuo, assim como todos nós, a procurar, a buscar amizades, pessoas que possam aconchegar-se em minha vida, e eu nas suas. Talvez não tenha mais aquela espontaneidade ou aquele desejo explícito e humilde que convidava.

Talvez não faça mais aquela pergunta tão simples do universo infantil: Você quer ser meu amigo? Mas, se você quiser, apenas, por favor, não me tranque em um quarto escuro, pois que de escuro já basta a malícia dos adultos.

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