26 de maio de 2013

Léolo e o Processo Criativo

 
(cena do filme Léolo - 1992)


Nos últimos dias, uma cena de cinema tem revisitado meus pensamentos. É uma cena do filme Léolo, de Jean-Claude Lauzón. Trata-se de um menino que sempre era vítima de outro menino, mais forte que ele. Chamarei este último de valentão. Quando o valentão aparecia e confrontava o menino, este era humilhado e apanhava, acabando derrotado e ao chão (embora aqui, "ao chão" possa ser algum tipo de memória inventada, visto o tempo que passou desde que assisti ao filme). Sendo assim, esse menino, do papel de vítima, passa a treinar e a trabalhar seu corpo para ficar mais forte no intento de enfrentar o adversário. Com muita convicção, vai aos poucos modificando seu corpo, desenvolvendo seus músculos e, de fato, através de muito esforço e persistência, fica muito forte, até mesmo mais do que aquele que o enfrentava. Sente-se, agora, confiante e preparado para enfrentar seus medos; sua postura e seu físico anunciam que ali não há mais resquícios daquele que ele era. Mas, eis que depois de muito tempo, o valentão se faz presente, e todo aquele preparo torna-se insuficiente, inútil. Seu adversário toca, como alguém que toca algo muito delicado, naquilo que há de mais frágil, e que mesmo com todo o esforço realizado pelas mudanças na imagem, ainda estava ali. O menino ainda era o mesmo, ainda tremia por dentro, e como não poderia deixar de ser, é agredido e vai ao chão, como antes, como há muito tempo atrás, como sempre foi... O medo não fora trabalhado, a fragilidade que o imobilizava, o seu ponto fraco, ainda era parte do que ele era.
A cena que aqui descrevo, passa muito longe da força que possui enquanto cena visual, cinematográfica. Essa cena desarma-nos, pois também nos deixa caídos ao chão quando a assistimos, eu aposto um pouco no "nós" exatamente por supor que essa fragilidade, essa que deve ficar intacta, essa que a gente sabe que não deve usar como alvo com aqueles que temos uma intimidade profunda, essa que a gente tenta esconder do mundo, mora num grande plural, embora cada um saiba a forma que adquire a sua. Como já mencionado, essa cena estava voltando em meus pensamentos e conversas ultimamente. Ela me marcou. Ao refletir sobre processo criativo, questão discutida no curso que estou fazendo sobre esse assunto, achei que ela representava algo dessas reflexões. O palestrante, na aula de hoje, falava que começamos a ser criativos quando esquecemos de nós, quando abandonamos aquilo que sabemos sobre quem somos para nos encontrarmos em um lugar que não reconhecemos. Assim, pode-se dar vazão a algo que não é aquilo que estamos habituados a responder frente às perguntas que a vida nos coloca. O que ele quis dizer é que o que sabemos fazer, o que aprendemos sobre quem somos, serve para algumas poucas situações, e para muitas e muitas outras, não. Nós ficamos insistindo que esse jeito basta para tudo o que se apresenta; ficamos cristalizados e frustrados com o fluir da vida, que coloca em xeque o que já tínhamos construído com tanto esforço, assim como o personagem. Porém, a criatividade, de fato, poderia começar a partir do levantar, de pensar outro jeito para enfrentar o valentão, mas não do jeito dele (do valentão), não querendo incorporar o que o outro sabia sobre aquela situação, mas, sim, diante do problema, perceber que resposta poderia ser dada, mesmo com o medo ali. O que seria possível criar que fosse maior que ele mesmo, que a fragilidade que provavelmente estaria lá, mas que não teria chance diante de uma vontade que a ultrapassasse? Diferente de quando se trata de provar alguma coisa, a  criatividade estaria imprescindivelmente ligada à paixão, pois só apaixonados enfrentamos a vulnerabilidade, o medo, o que não representa fingir que eles não existem. O que acontece é que o que se deseja, se torna maior, se torna mais importante, e então nos colocamos a inventar jeitos, respostas, formas e caminhos para responder as diversas perguntas também de diversas maneiras. Assim, o que venho aprendendo, é que ser criativo trata-se também de nos esquecermos de nós e que, curiosamente, assim,  nos transformamos em nós mesmos.
 
(Sheila Staudt)

2 comentários:

Márcia disse...

Que recorte interessante tu apresenta. Esta cena é revivida tantas vezes por nós, que crescidos sempre nos surpreendemos quando retornamos à criança que fomos,ao medo que joga os dados quando não temos forças pra jogar, mas mesmo assim não escapamos do acaso, do devir. Vale reproduzir... "Assim, o que venho aprendendo, é que ser criativo trata-se também de nos esquecermos de nós e que, curiosamente, assim, nos transformamos em nós mesmos.

Sheila S.S. disse...

Que o devir seja um pouco de nossa coragem em jogar os dados, em jogar o nosso jogo... Beijão, querida! Sempre me alegra a tua vinda.