12 de junho de 2009


Aproveitando a data de hoje - Dia dos Namorados - estou postando três textos que fazem parte de um trabalho maior que realizei para a disciplina de Estágio de observação e descrição cursada ano passado na UCPEL. Nós, alunos, passamos pela experiência de observar um determinado contexto, escolhido por nós (fomos orientados pelas professoras responsáveis na escolha desses lugares e pessoas), após uma boa fundamentação e estudo para que isso acontecesse. Minha observação aconteceu em um salão de beleza, tendo como foco o diálogo de duas mulheres, diálogo esse que explicitou quase que sempre o mesmo assunto, as mesmas preocupações e conflitos, ao menos nas vezes em que estive presente neste local. O objetivo aqui não é detalhar a experiência e sim localizar os textos, já que são três de vários subtítulos de um trabalho intitulado "Um Olhar sobre o Amor."




O Amor Eros


Durante um período de tempo, nas aulas de Antropologia que cursei no segundo semestre do curso, refletimos e discutimos, enquanto turma, sobre o tema “amor”. Um dos textos trabalhados foi “As Novas faces do Amor”, escrito pelo filósofo Luc Ferry. O autor nos apresenta três tipos de amor que remontam da Antigüidade Helenística, ou seja, os gregos designavam essas formas de amor através de três palavras: Eros, Philia e Agape. Philia seria o amor que não vive da falta, basta a presença, existência do ser amado, pode ser traduzida como amizade. O amor agapè é um amor maior, podemos dizer até mesmo que seja um amor gratuito, universal: “ele surgiu nos evangelhos, designando o amor que Cristo nos recomenda estender àqueles que nos são indiferentes, ou até inimigos.” FERRY (2007, p.135)

Mas o amor que de fato se faz importante explorar no contexto contemplado pelo trabalho é o amor Eros: “o desejo sexual, exaltado na paixão amorosa é falta. Por isso ele pede o consumo do outro. Uma vez satisfeito, ele mergulha em um vazio intenso, até renascer e recomeçar sem outra finalidade última senão a morte mesma.” FERRY (2007, p.134)

Na mitologia grega o Amor (Eros) é fruto da união do imortal Recurso (Poros) com a mortal Pobreza (Pênia). Foi gerado no dia do nascimento de Afrodite e por isso será considerado para sempre o servo da beleza. Herdou da mãe a carência e o destino de andarilho e do pai, a coragem e a energia que o tornam um caçador astuto. A partir da fusão dessas heranças, tornou-se um ser nem mortal, nem imortal, assim ficando a transitar permanentemente entre viver, morrer e ressuscitar.

Freud também concebeu o amor a partir da sua teoria sobre as pulsões. Para Freud, o ser humano é dotado de duas pulsões básicas: Eros (pulsão de vida) e Tanathos (pulsão destruidora, ou pulsão de morte). “Eros, cuja energia é denominada libido, reúne as pulsões de conservação e as pulsões que, em um primeiro momento, Freud chamou sexuais e, por último, simplesmente amor, compreendendo o amor narcisista e o amor objetal.” COSTA (2007, p. 162)

A paixão é um outro aspecto que não pode ser posto de lado quando abordamos o amor. No caso desse trabalho, essa abordagem se faz importante no momento em que o comportamento de uma das mulheres observadas, a dona do salão, indica e traz à tona a suspeita de um estado de paixão (levando em conta as características teóricas que denominam esse sentimento) para com a pessoa amada.

A paixão, do ponto de vista psicanalítico, é caracterizada pela transferência de uma carga libidinal muito grande para a pessoa amada. “Em sua maior parte, a literatura psicanalítica equipara a paixão (pathos) a um estado de enfermidade mental caracterizada pela idealização maciça do objeto de amor e total cegueira da realidade por parte do sujeito.” COSTA (2007, p.164)

Podemos concluir que o amor Eros nunca se satisfaz, pois ele é falta, e precisa constantemente ser preenchido, alimentado, sendo assim, não suporta a solidão. Ele é um amor dependente, que solicita o outro, ele quer afastar tudo o que pode impedir a posse.

Para finalizar esse subcapítulo trago mais uma vez as palavras de Erick Fromm ( [19-?], p.79) para complementar a abordagem sobre o amor Eros: “... o amor erótico é o anseio da fusão completa, de união com uma outra pessoa. É, por sua própria natureza exclusiva e não universal; é também, talvez, a mais enganosa forma de amor que existe.”


Sedução


O fator sedução tem toda uma relevância no contexto das relações amorosas. Vivemos um momento em que o ser capaz de seduzir significa poder, seja em que área for, não somente nas questões do amor.

Mas, o que significa seduzir? Que aspectos transitam nessa relação de sedução entre homem e mulher? Se antes essa relação se dava de forma clara e estabelecida pelos comportamentos sociais, o que mudou com a evolução do papel feminino?

O papel de seduzir, de conquistar, durante muito tempo foi atribuído aos homens, às mulheres cabia a espera, o despertar o desejo do homem, porém, de forma muito sutil e reservada, sem que ao menos isso pudesse ficar muito claro, ou que fosse denunciado a partir de um comportamento revelador.

Lipovetsky (2000, p.53) diz que

Por muito tempo as manobras sedutivas masculinas se apoiaram no lirismo sentimental e na exaltação da mulher. Fazer sua corte, ganhar os favores da dama implicavam cobri-la de cumprimentos e convencê-la da sinceridade de seus sentimentos. Daí o papel das lágrimas e dos suspiros, dos protestos ardentes, das súplicas e das inevitáveis promessas de casamento. Assim o opera Don Juan: que faz ele senão prestar homenagens à beleza de suas futuras vítimas, assegura-las da sinceridade de seu coração, prometer-lhes casamento?

Se antes esse papel era bem definido e aceito, hoje, em nossa atualidade, caso o homem arrisque-se a determinados comportamentos na hora da conquista, remontando ao galanteio, pode ser que seja mais ridicularizado do que valorizado, e que não cumpra o objetivo de lisonjear a mulher. Todas as conquistas das mulheres, sua emancipação, a revolução sexual, a independência financeira, a autonomia, transformaram as leis da sedução.

Sobre isso, o autor Lipovetsky (2000, p.54) afirma que

Nada ilustra melhor a lógica dessublimada constitutiva da sedução contemporânea do que o novo lugar ocupado pelo humor. Antigamente, para fazer a corte, era preciso mostrar-se apaixonado e falar de amor: agora, deve-se fazer rir. (...) Na promoção do humor, há mais que a valorização da distenção distrativa, há o desejo feminino de relações menos convencionais e mais livres, de relações mais cúmplices com os homens. Assim, o humor sedutivo se apresenta como uma manifestação típica das novas paixões democráticas femininas.

Hoje a espera da mulher pode ser configurada como uma forma de valorização de si mesma, não tomar a iniciativa significa um desejo de serem honradas, pode ser uma forma de representar que a questão do sexo não é a mais importante em relação ao seu desejo, ou seja, que não estão impacientes para o envolvimento sexual e que a questão emocional prevalece como objetivo primeiro.


A bela mulher


Um dos aspectos mais valorizados no campo da sedução é a beleza. Embora a beleza seja uma característica valorizada tanto por homens ou por mulheres, com certeza esses dois universos a tratam de forma bem diferente. Para a mulher, atualmente ela se configura como a arma mais importante no jogo da sedução, porém, os riscos que se corre na busca desenfreada por essa beleza ditada e selecionada pelos meios de comunicação podem trazer muitos danos e angústias. Mas, a beleza, embora esteja no pico da escala de valores das relações atuais, sendo um pouco pessimista talvez, sempre foi uma preocupação feminina, independente da época. Ao longo do século XX, a imprensa feminina, a publicidade, o cinema, a fotografia de moda propagaram pela primeira vez as normas e as imagens ideais do feminino na escala do grande número. Com as estrelas, as manequins e as imagens de pin-up, os modelos superlativos da feminilidade saem do reino da raridade e invadem a vida cotidiana.” LIPOVETSKY (2000, p.128)

As preocupações com a aparência física, voltadas para uma referência estética, imposta e pouco refletida, apareceram nas falas das mulheres observadas várias vezes, quase sempre como uma qualidade em prol de uma conquista a ser feita ou mantida. Certa vez, uma delas parou na frente do espelho, segurou os seios por cima da blusa e juntou-os comentando que o “certo” seria daquele jeito, mais unidos e não separados. São pensamentos assim, que muitas vezes tomam uma proporção maior e acabam por dominarem as opiniões femininas a respeito de seus próprios corpos, fazendo com que passem a exigirem-se demais de si próprias.

Lipovetsky (2000, p.137) aponta

A partir dos anos 60, a nova cultura juvenil difunde modelos estéticos adolescentes; os ídolos de aparência jovem, magra, descontraída fazem furor. A palavra de ordem já não é “parecer rico”, mas “parecer jovem”; todos os sinais que simbolizam a idade, os “coroas”, o peso burguês acham-se tendencialmente desvalorizados. O que vemos hoje exprime antes de tudo o apogeu de uma dinâmica ligada às metamorfoses da cultura de massa, da moda e dos lazeres nas sociedades modernas de cem anos para cá.

Muitas vezes me pareceu que o corpo, a beleza e o parecer jovem estavam acima de qualquer outro valor, ou seja, estar com um homem poderia sempre ser mais fácil se a questão sexual estivesse explícita, significando dessa forma que se poderia ser uma mulher sensual, desprovida de qualquer tabu, pronta a aceitar as mais variadas aventuras. Essas características não tomam um significado pejorativo pelo que implicam isoladamente, porém no contexto que se apresentavam, estavam sempre vinculadas com o fato de que os homens jamais conseguem resistir a essa fórmula de mulher, mesmo os que já têm suas companheiras, ou seja, essa fórmula de mulher consegue tudo, pois são irresistíveis. O que acontece, é que nem sempre essa imagem corresponde ao que se gostaria de ser e/ou sentir.

Assim, o amor, um sentimento tão profundo e pessoal, tem sido vivido com base nesses ideais midiáticos que engolem a tendência natural de cada mulher, de poder se conhecer e ver o que é melhor para si, tanto esteticamente quanto comportamentalmente. Hoje não há espaço nem tempo para que cada ser se descubra como único e que, principalmente, respeite a si mesmo, pois muitas vezes, ao longo desse processo de observação, pude perceber que o comportamento exteriorizado não condizia com as vontades próprias e os sentimentos mais verdadeiros, porém, esses não têm força diante de uma cultura tão pesada e de influência tão avassaladora que dita as regras até mesmo em relação ao que cada um tem de mais particular.


Referências Bibliográficas:

COSTA, Gley P. O Amor e seus Labirintos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

FERRY, Luc. O Homem Deus ou o Sentido da Vida. Rio de Janeiro: Difel, 2007.

FROMM, Erick. A Arte de Amar. Belo Horizonte: Itatiaia, [19-?].

LIPOVETSKY, Gilles. A Terceira Mulher: Permanência e revolução do feminino. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


2 comentários:

Mr. Cortex disse...

O problema da busca pela beleza na nossa sociedade é a falta de uma reflexão sobre a estética vigente. O belo deveria estar indissociado do saudável, mas não raramente vemos justamente o contrário. O belo também deveria se encontrar na singularidade de cada indivíduo e não na padronização, como ocorre com tanta frequência, tanto no universo feminino quanto no universo masculino. O resultado é que a frustração se faz cada vez mais evidente nos relacionamentos.

Sheila S.S. disse...

É tão complicado partir de um ponto para refletir sobre essa questão... Mas necessário! Quando começo a pensar sobre esse belo que aflige as mulheres e a sociedade como um todo, parece-me quase impossível tentar apontar uma causa, um ponto decisivo que faz com que essa cadeia imensa de atos, exigências, preocupações e baixa auto-estima continue se desenvolvendo avassaladoramente. Sabemos que a mídia é o carro-chefe, assim como o capital, tudo isso que já estamos carecas de saber e identificar nas entrelinhas dos nossos jornais, filmes, programas, revistas, vivências, etc... Mas ao mesmo tempo, tudo isso está ligado também às questões de nosso desenvolvimento e daí vamos parar na psicologia, e como fica difícil ver as coisas de outro ponto de vista, né?! É que acredito que a diferença possa vir de uma educação que permita às crianças desenvolverem seu senso estético desde cedo, a partir das suas vivências e tendências particulares... E isso, começa desde as primeiras garatujas, quando ela quer ecolher a cor do lápis de cor, mas aprende que menina deve gostar de rosa e meninos de azul e não ao contrário, entre outras inúmeras situações que envolvem o universo educacional e do desenvolvimento como um todo. Quando faço uma crítica em relação a essa "bela mulher" não estou querendo defender o desleixo ou a falta de cuidado consigo mesma, mas apenas apontar uma série de acontecimentos que pude presenciar, e que são a própria voz da Globo e de outros meios de comunicação nas vozes das mulheres. Penso que o ser humano procura o belo, o tempo inteiro, mas a questão é o que é esse belo para mim, e para você? Eu consigo reconhecer uma série de fatores que me acompanharam desde a infância e que hoje contribuem para que eu faça esse julgamento, do que considero belo, do que me atrai... E, claro, estão ligados com meus filmes e artistas que eu gostava, talvez a salvação estivesse no laboratório de fotos do meu pai e em toda a parafernália artística que era a sua casa e que eu e meu irmão achávamos um "parque de diversões"... hehehe Digo salvação, sem levar ao pé da letra, pois penso que o contato com a criação artística e com as diversas formas do belo são influenciadores positivos na quebra dos padrões. As coisas não são belas ou feias, se pararmos para pensar, quem as atribui isso? Bonito e feio é o nosso olhar, tudo depende dele... :) Abração.