7 de junho de 2009

Poder às escuras

O pensamento cartesiano que concebe a ideia dual do homem (corpo material X pensamento) ainda é uma ideia bastante presente socialmente. Tendemos a associar esses dois elementos como funções distintas de um mesmo ser, deixando de perceber que somos um corpo. Não se trata de algo que possuimos. O corpo é o ser. Porém, esse corpo pode ser transformado, submetido, utilizado para os mais diversos fins; ele é um alvo de poder. A esse processo que visa dominar o corpo do outro através da disciplina, Michel Foucault chama "docilização dos corpos".
"... em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações." (FOUCAULT, 1987)

Em todos os momentos de nosso agir nosso corpo obedece a padrões de comportamento compatíveis com a situação. Desde que nascemos somos ensinados a nos posicionarmos da maneira mais adequada (levando em conta, certamente, as diferentes culturas) e seguimos condicionados às mais diversas formas de se estar no mundo; e quando não condicionados, experimentamos talvez o desconforto de adaptarmo-nos a certas posturas.

Esse tipo de docilização, até necessário, de certa forma, para se poder viver em um modelo de sociedade, tem um limite que pode ser considerado aceitável (limite esse, muito particular, digamos assim...);caso contrário, pode adquirir um outro formato, então perigoso, quando o corpo configura-se utilitário, ou seja, corpo estritamente produtivo e submisso. Mas, o elemento que Foucault salienta como mais grave é a sutileza... A sutileza em que se apresenta esse poder, essa domesticação simbólica. Um poder às escuras. Maria de Arruda Aranha expressa essa questão da seguinte forma: "A novidade do pensamento de Foucault é que essa política de dominação pelo corpo não é exercida às claras, como na escravidão, nem por qualquer aparelho do Estado, mas os poderes se exercem em pontos diferentes no próprio seio da sociedade. Começam lentamente a funcionar nos colégios, nos hospitais, nas casas de recolhimento de mendigos e loucos, nas fábricas, nos quartéis, nas prisões. A nova disciplina atua na organização do espaço, no controle do tempo e na vigilância."


Essa docilização resulta no indivíduo submisso, tão dependente de sua condição, que na maioria das vezes não consegue, nem sabe estar no mundo de outra forma. Quando exposto a uma certa "liberdade", não é capaz de desenvolver por si só autonomia ou condições de libertar-se das amarras de sua docilização, pois ela se dá através do hábito construído e também a partir das pequenas coisas, dos detalhes, sorrateiramente. Assim, ela acaba de fato incorporada, configurando o ser.

Estar no mundo sem a condiçaõ de ser submetido ao poder é uma ideia utópica, mas há formas de amenizar os resultados desse processo, com sorte, talvez... Muito depende dos modelos educacionais que atuarão na vida do homem. Uma série de circunstâncias "entram em jogo"; mas acredito que o homem que pode ter espaço para criar, expressar, sonhar, importante o sonhar..., e que não seja submetido a processos muito rígidos e marcantes de disciplina, saberá usá-la (a disciplina) como elemento necessário para seu crescimento e questioná-la quando ela se torna sem sentido e um mecanismo usurpador do potencial humano.

Referências Bibliográficas:

ARANHA, Maria L. Arruda e MARTINS, Maria H. Pires. filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

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