23 de julho de 2010

Pasmo essencial


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro em "O Guardador de Rebanhos"

5 comentários:

Ana disse...

Estava lendo numa Antologia poética do Fernando: a "galáxia pessoana". Vasta... além dos três heterônimos conhecidos, e de um semi-heterônimo: Bernardo Soares, do Livro do Desassossego... nas últimas décadas foram encontradas mais de 70 personalidades literárias (pequenos heterônimos).

...
Caeiro é seu mais diferente heterônimo.
"Se em Fernando Pessoa, 'O que em mim sente 'stá pensando', em Caeiro, tudo acontece ao contrário: 'Procuro dizer o que sinto/ Sem pensar em que o que sinto.'"

Amiga, ainda com esse heterônimo: "...Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer..." :)

Começou com um rebanho... e cheguei na "estrada sem curva nenhuma". :))

Abração... que vontade de te ver!

Celso Andrade disse...

O caeiro é muito Fod...

tudo belo por aqui

beijo

O Matuto disse...

Que lindo esse...e consegui juntar com o que estou lendo do Castaneda, "Um estranha realidade", que trata da diferençã de "olhar" e de "ver".
abs

G I L B E R T O disse...

Sheila

Teu gosto poético impressiona!

que belo texto lirico, que belo, que profundo, que tocante!

Estejas sempre feliz e vibrante com a vida, mon ami, sempre e sempre!

Feliz por ter estado aqui, contigo!

Sheila S.S. disse...

Ana, que aula, hein!? Adorei teu comentário. Tu sempre tens algo a acrescentar. Não é de hoje que me trazes sempre um algo mais, uma surpresa, uma curiosidade sobre algo que gosto, que estou a ler, ou então, sobre algo que ainda quero conhecer. Minha amiga, sou grata por poder partilhar do teu conhecimento.

Celso, obrigada pela sua visita.

Matuto, essa diferenciação entre olhar e ver é um dos aspectos bastante discutido no contexto das artes visuais, e claro, não somente aí. Fiquei interessada nesse material. Deixo assim, uma frase do Saramago sobre: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Gilberto, obrigada pelas suas palavras sempre tão gentis.