22 de julho de 2009

Ainda da febre - II

O olhar denunciava. Não havia mais qualquer coisa de desejo a externalizar. Os olhos eram opacos e pareciam pesar sobre cada elemento que por eles era pego desprevenido.

Como nada mais pudera transformar-se em novidade, ela acostumara-se com aquele tipo de expressão. Exatamente a expressão de alguém que carrega algo morto dentro de si.

Mas o mundo à sua volta era tão ocupado para notar algo assim, até porque haviam muitas dessas expressões a ilustrar a realidade, e ela, certa como estava da posição que agora assumira, respirava e movimentava-se nos minutos que formavam aquele caminho invisível chamado tempo.

As palavras já não podiam ajudá-la, tão pouco sentia a temperatura que permitia aquecer-lhe quando de outros pensamentos. Era agora como que uma pequena fonte, abandonada em um jardim solitário, sem o som cristalino da água... Seca, esquecida, cheia de folhas igualmente secas a invadir-lhe. Estava tão misturada àquele triste lugar que não podia mais ser notada.

Enfrentava o peso de sua escolha. Ao menos era uma saída. Teria de viver com aquela mulher que então se apresentava.

Teria de modificar aquela fraqueza em alguma quantidade qualquer de força, o suficiente para que pudesse continuar.

Um comentário:

Elaine Batista disse...

Nossa que lindo, parece que eu viajava em um dos livros de C. Lispektor. Você muito jeito para escrever, um dominio com as palavras uma intimidade que nem consigo expressar o que senti.